Raízes
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"Quando comecei com a Dança Oriental (no tempo em que Noé saiu da Arca) fui atraída pela beleza de sua música e de seus movimentos, e não imaginei que ela poderia ser mal interpretada por pessoas ignorantes e mal informadas. Na minha inocência, acreditava que a graça de uma talentosa bailarina era suficiente para provar a beleza e a legitimidade desta antiga forma de arte. Como eu estava errada! Perdi a conta de quantas vezes minha moral e valor foram julgados baseados neste nome vulgar "belly" dancing (dança do "ventre") e em apresentações anteriores de pessoas que, como em toda profissão, levam a um baixo denominador comum. Foi então que iniciei uma séria pesquisa histórica com o intuito de evitar as besteiras fantasiosas que estavam sendo publicadas, filmadas, apresentadas e acreditadas pelos Estados Unidos, parte do Canadá e Europa... Fiquei
impressionada com o fato de que a maioria das informações
em inglês, francês e alemão eram dadas por dois
tipos de pessoas: racistas de mentes sujas, incluindo os puritanos
missionários colonizadores que baixavam o olhar a tudo que
dissesse respeito a tradições de outros povos, suas
cerimônias e divertimentos. Julgavam tudo sob uma ótica
esnobe tipicamente européia, que considerava o corpo como algo
pecaminoso e a valsa como erótica e depravada - e - aqueles
que eu chamo de "antropologistas de prostíbulo":
homens jovens (e não tão jovens) que viajavam ao Oriente
Médio como parte de sua "educação"
e escreviam sobre isso por dinheiro, sensacionalismo ou por causa
de pais castradores. Não
encontrei nenhum caso em que algum desses HOMENS tenha tido a oportunidade
de participar do dia-a-dia de uma família ou mesmo de uma tribo,
de maneira a verem os rituais de mulheres de família em suas
próprias casas. Mesmo que tivessem amigos homens na comunidade
islâmica o acesso às mulheres lhes seria negado. A
suspeita de que havia uma ligação entre os movimentos
de ondulação da dança oriental e o ato de dar
à luz veio de repente em Fevereiro de 1961 quando, ao terminar
uma apresentação de dança no Arabian Nights na
cidade de Nova York, fui abordada por uma mulher saudita, Farab Firdoz,
que se recusava a acreditar que eu não fosse árabe pois,
segundo ela eu dançava de maneira autêntica. Ela
era dançarina e aprendeu com a mãe e a avó que
também foram dançarinas. Ela me falou que o "belly
roll" (ondulações de ventre), as vibrações
de ventre e alguns movimentos de chão eram baseados em movimentos
do trabalho de parto e que milhares de anos atrás, faziam parte
de cerimônias religiosas. Com o advento do monoteísmo
e outras restrições religiosas, essas cerimônias
perderam o caráter religioso e passaram a ser praticadas livremente
como entretenimento (em platéias exclusivamente feminina ou
misturadas), de forma ritualística/terapêutica. Em
áreas remotas do oriente onde os costumes ocidentais ainda
não penetraram, as mulheres da tribo se juntam em torno da
mulher em trabalho de parto e fazem certos movimentos com seus ventres
encorajando-a a fazer o mesmo, de forma a facilitar o parto e lembrar
que cada uma delas divide o mesmo destino e as mesmas experiências
como mulher. Praticando esses movimentos em várias danças
folclóricas desde a infância, seus músculos abdominais
são fortes e melhores preparados para o stress do parto. Em 1962, numa livraria em Londres encontrei "A Dançarina de Shamahka" (The Dancer of Shamaka) de Armen Ohanian e a passagem que citei em meu artigo de 1964, "A Dança do Ventre e o Parto" (Belly Dancing and Childbirth) assim como o resto do livro que, forneceu informações sobre datas e contextos culturais de onde foi escrito. Eu não acreditei em tudo o que o livro dizia, questionei novamente minha amiga saudita e ela me falou que recentemente, coisa de 25 anos atrás (1937), ela estava presente quando um grupo de mulheres da tribo de sua mãe juntaram-se ao redor da cama de uma mulher em trabalho de parto fazendo esses mesmos movimentos, inclusive ela própria. Depois foram feitas outras danças para celebrarem o nascimento, inclusive uma repetição mais elaborada da dança o parto. Homens eram proibidos de assistir a nascimentos ou a celebrações de mulheres, eles tinham suas próprias danças e celebrações para eventos dos quais as mulheres, igualmente, não participavam. Comecei a acreditar. Em 1963, o Pavilhão de Marrocos na Feira Mundial de Nova York abriu e eu estava lá no primeiro dia para o primeiro show. Fiquei para mais quatro. Os diretores/promotores do pavilhão, os quais eu já conhecia (isso é outra história!) perceberam meu interesse (por que será?). Eles estavam surpresos e contentes com a minha seriedade a respeito da dança e da cultura árabe e então passaram a me dar informações (e comida também, muita!). Em uma dessas conversas, um deles disse que sua esposa estava voltando ao Marrocos, para a cidade de seus primos, e que uma delas estava para ter bebê pela primeira vez e que ela estava indo para ajudar a "dançar o bebê ao mundo". O quê ? E ele repetiu a mesma história que Farab havia me dito dois anos antes. Primeiro a mulher saudita e agora um marroquino com a mesma história. A esposa dele não era dançarina profissional, ela era uma rica dona de casa que não negava suas raízes vinda de uma tribo Berber, ainda não afetada pela cultura ocidental. Eu disse a ele que daria metade da minha alma para poder presenciar uma cerimônia como essa e ele prometeu ajudar. Em 1964 eu escrevi o artigo mencionado anteriormente o qual foi publicado numa revista médica especializada. Esse artigo foi reimpresso em outras cinco publicações, de jornais feministas e publicações sobre dança a Medical Dimensions de 1974 (revista médica). O número de abril de 1961 da revista Dance Perspectives mostrava que La Meri, a respeitável dançarina e etnóloga usou a mesma passagem de A Dançarina de Shamahka para ilustrar seu artigo. Mundo pequeno não? A
essas alturas, pensei que meu amigo marroquino tinha esquecido sua promessa
mas em 1967 recebi notícias de Casablanca: "venha para cá imediatamente,
se ainda quiser ver o que me pediu". Outra prima estava para dar
à luz e pelo tamanho, deviam ser gêmeos. Sem perguntas apanhei meu passaporte,
emprestei um dinheiro de minha mãe (obrigada mãe!) e voei para Casablanca.
(Pensando bem não lhe devolvi o dinheiro ainda. Ela também
não tocou no assunto.) A esposa do marroquino me esperava no
aeroporto e foi me explicando a situação no caminho para a pequena cidade,
um lugar entre Tisint e Tintasart (nada que se pudesse chamar de cidades
turísticas!). Uma
tenda especial foi armada para onde a prima foi levada no dia anterior
após ser banhada por amigas no hamman. Seu marido era um grande
mogul (pessoa muito importante) na tribo e muitos festejos
acompanharam o evento. Ela estava sentada numa espécie de divã (sofá
baixo) na parte de trás da tenda e eu notei um buraco no chão
bem no centro. Tinha bastante comida, frutas e chá de hortelã para
as convidadas. Os homens deviam ficar a uma distância de 100 jardas
da tenda. Não se sabia exatamente o dia do parto mas sabia-se que
estava perto. Mais parentes eram esperados e havia comida para alimentar
um exército. Passamos o dia cantando, tocando bendirs (instrumento
típico marroquino) , dançando Schikhatt, tomando chá
de hortelã (que eu servia a minha "senhora" de maneira razoável!)
e comendo. Ah, sim - a grávida levantou-se e dançou boa parte do dia,
vestida com uma bela kaftan (tipo de vestido) bordada. Parávamos
somente para as preces do dia. Graças a Deus sou uma dançarina
e pude imitar os movimentos do ritual islâmico como se estivesse
imitando uma dança, ou tudo teria ido por água abaixo
naquele momento. Bebemos chá de hortelã servido a todos
e continuamos a dançar. Mais
ou menos uma hora depois ela soltou um grito abafado e ouvimos um
barulho seco. Ela levantou sua kaftan e vimos um bebê
no buraco. Mas ainda não havia terminado, quinze minutos depois
outro grito e outro barulho seco. Eram gêmeos. Eles
foram limpos com panos macios feitos com lã de carneiro umedecidos
com chá fresco, mas os cordões umbilicais só
foram cortados após a saída da placenta. Eles foram
cortados com uma faca de prata e a placenta enterrada no mesmo buraco
que recebera os recém-nascidos. Enquanto
assistia ela dando à luz, pude perceber seu ventre por baixo
da kaftan em contrações involuntárias igualzinho
as gatas quando estão parindo. Mais tarde perguntei a minha "senhora"
se ela também estava dançando ou se eram movimentos naturais
e ela disse: "Nós
fizemos uma imitação dos movimentos naturais. Ela tinha
que fazer esses movimentos quando dava à luz porque não
podia ser de outra maneira." Em outras palavras, aqueles eram
movimentos naturais do trabalho de parto que foram "apagados"
de nossos cérebros por propagandas religiosas e manobras médicas. De forma alguma isso pode significar que quando danço finjo estar parindo. Yuk! Significa sim, que sei a origem, a intenção, o respeito e o amor pela vida que a dança deve mostrar. Ela deve ser graciosa, bonita, artística, sincera e não um show vulgar para entreter homens. Não me desculpo a ninguém pela minha arte, agradeço a Deus por isso, pela minha habilidade em fazê-lo e por ganhar o meu sustento fazendo algo que gosto. Não tenho nenhum respeito por alguns infelizes que usam a dança para projetar suas degeneradas fantasias sexuais, pois não têm confiança em sua própria sexualidade. Toda
dança tem suas raízes em algum tipo de cerimônia
religiosa, algumas delas deliberadamente erótica, assim como
um discurso tem sua origem nos grunidos dos homens das cavernas. Toda
forma de dança, bem feita (assim como esporte, ginástica,
etc.) é agradável aos olhos e pode ser sensual. Infelizmente,
existem os ignorantes que acham qualquer movimento um pouco mais trabalhado
do corpo humano indecente e lascivo. Isso
é um problema deles, mas é difícil trabalhar
como uma verdadeira bailarina oriental e etnóloga sem ter que
lidar com essas mentes doentes e suas interpretações
vulgares. Felizmente, existem bailarinas que respeitam a si mesma e a arte da dança. Há também o povo oriental que não sucumbiu a distorção e degradação colonialista de sua herança étnica. São pessoas que conhecem arte quando vêem. A eles o meu muito obrigado e podem se alegrar por eu ser uma dançarina oriental. Pois certamente, eu sou." |
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